segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (22) É notável o ostracismo dos intelectuais Jingola, parecem dementes, coniventes.



E criaram duas classes sociais: a dos petrolíferos e a dos petrofamintos. Uma classe da nobreza petrolífera com tudo, e a outra sem nada, apenas com a garantia de graves convulsões sociais. Este cancro social cria rios de metástases incuráveis numa sociedade dominada por fósseis humanos. E a água está em primeiro lugar no pódio da devastação, escassa. São muitos prédios, torres, condomínios neste Dubai angolano, matas de obras para regar. E a água vai secar, vai-nos abandonar.


Invocando os sacrifícios humanos dos apelidados selvagens, iniciaram a matança de milhares, de milhões. Sem comparação possível com os rituais dos corpos que eram oferecidos aos deuses das civilizações destruídas. Os civilizadores brancos queriam apenas roubar e tudo lhes servia e serve de pretexto. Exterminaram civilizações que desapareceram da História, restando alguns exemplares que mal se lembram do que se passou com os seus antepassados. Foi assim com os Maias, Astecas, Incas, Hindus, Islamitas, Índios dos Estados Unidos da América, Índios do Brasil e os Negros. Aqui é uma anedota extraordinária: a civilização branca defendia-se que esta gente andava nua. Vestiam qualquer coisa para se taparem. Não sabiam o que era vestuário, por isso diziam que eram muito primitivos. Mas os seus olhos lançavam faíscas de lascívia para os seios nus e para os corpos das nativas. Eles, e especialmente elas, as brancas, deram nas vistas que o calor era demais e ofereceram os seus corpos quase desnudos, imitando as selvagens de corpo escuro, moreno, tisnado, sensual, apetitoso da cor misteriosa do luar africano. Foram compensados, habilmente ludibriados com a liberdade da carta de alforria. A questão é: pode um escravo ser livre? Nunca! Passa de uma escravidão para outra. O escravo é liberto mas não se liberta, não consegue sobreviver porque não lhe deram acesso a nenhuma instrução, a nenhuma profissão. Ele deveria reivindicar esse privilégio. Mas como, se ele não sabe ler, não sabe escrever. Nesta condição, libertar é neo-escravizar. Foi isto que se passou com as independências em África. Oportunistas africanos educados na civilização branca, lutaram pela independência, prometeram bem-estar aos seus povos, correram com os colonizadores, mais tarde lembraram-se que os brancos antes de serem escorraçados, deveriam ficar algum tempo para deixarem aos negros as profissões necessárias para manterem os países na normalidade. De qualquer modo a civilização branca apoiou esse abandono. Sabiam com sarcasmo que uma inapta multidão de escravos satisfaria a continuação dos seus desejos. Na administração colonial caíam algumas migalhas, no neocolonialismo essa rubrica deixou de existir. Substituiu-se por outra: o lucro do despejo e da espoliação dos casebres. É mais fácil, não dá trabalho nem chatices explorar. É por isso que se diz que a fome não é branca, é negra. Ressoa-me na memória a homilia sacerdotal do estigma dos três cês, a perversão social dos desejos fáceis do feminino: casa, carro e conta bancária.

As janelas das ondas do mar abriram-se de par em par. Alagaram a História sagrada do mar alto, andam fora de mim. Vivo num mar sem rosas. A areia molha-se, remolha-se, recolhe-se, rebola-se. Voltar ao que sempre foi, não ao que é. Caminho para… desço uma escada sem fim Outra onda grande cresceu, é outro maremoto. Em Gandhi a inteligência prevaleceu, e venceu.
A cólera impacientava-se, queria escoar-se, faltava-lhe liquidez. O céu auxiliou-a, enviou-lhe chuva hip-hop. Já vitimou mais de três mil. Contaminou, facilmente contaminará.
Novos-ricos Politburo de má nota desbastam nas andanças das festanças, caixas desapossadas, avolumadas com notas de cem dólares. Seitas religiosas mandam lançar no mar os espíritos falecidos. Muitas almas errantes pairam sob as águas. Dizem que não se pode ir para essas praias porque as almas perdidas nos espantam.
Os Politburo quando se dirigem para os seus carros, ou deles saem, fazem-no com imensa cautela. Espreitam para todo o lado, com receio que os Órfãos os ataquem. Os Politburo têm sempre seguranças Jingola armados que os protegem.
Pelo rumo que as coisas tomam, caminham, com os líderes que governam o mundo, é mais uma civilização, esta dos tempos globais que desaparece. É notável o ostracismo dos intelectuais Jingola, parecem dementes, coniventes. Onde estão os seus cérebros? Provavelmente perdidos nas florestas e nos canteiros de betão. Sim, eles deixaram de pensar, porque já não têm bosques, árvores, falta-lhes o oxigénio purificador que alimenta o pensamento.
Preparei a minha tanga, o arco e flechas.
Não sei onde estou, o que sou, acho que me perdi no tempo, ou o tempo perdeu-me. O que serei, o que será de mim?! Vão-me plastificar na civilização do saco de plástico. Jingola… onde qualquer gato-pingado aventureiro, é doutor, engenheiro. Jingola dos ministros e vice-ministros. Onde há muitas vozes de comando, desumaniza-se o mando. O culpado de tudo é o mar, fez as civilizações soçobrar, colonizar. Escondeu-me o carvalho, o quetzal, e o Manitu. Regozijou-me com Kalunga, mukeka, e missosso… Consolou-me com a Cruz… neocolonizou-me.
Lwena sem casebre. Abandonada numa tenda (?) sem rua, nua, espoliada algures no Golfo da Guiné. Perdi o encontro, o encanto milenar, o silêncio, o ardor e o meu doce olhar. Já não consigo mais chorar.
Desencontro o luar do meu cabelo, no rio, dominado pelo Senhor dos casebres. Onde jaz o silêncio das suas margens. Só, no luar das noites não conseguirei mais amar. Adoro o silêncio das manhãs e a sonoridade das folhas das plantas. A chuva escorre-me, sinto-me plantada num deserto, é isto o que se vê por todo o lado. Este é o saldo da luta sem libertação da opressão dos novos-ricos e da podridão destes ricos. Aguardo a deusa Kalunga que ressurja do fundo das águas e alerte o génio dos jasmins dos casebres para me transformar, perfumar. Todos os dias com e sem amanhãs, grito para os novos colonizadores. Aguardo a espada vingadora! Libertadora!
Eis que aportam os navios já antes navegados Partiram com novos degredados mas, regressaram da Ocidental civilização e outra vez me descasebram. Vivia com as flores, com os jasmins amarelos, azuis, brilhantes, imperadores, dos rios dos poetas, estrelas, verdes, vermelhos. Pedi ao Deus das florestas que me navegasse num navio feito de jasmins. Que me fecundasse no seu sémen num profundo jasminal. E pela manhã quando a lua despertar do seu sono nocturno, encontrar-me-á a cantar E fará de mim uma estátua E apagará, não deixará vestígios das sepulturas destes tiranos. Serei a sementeira do novo amor que a minha Angola perdeu. Perdida, afundada nas multinacionais dos novos senhores prediais. Regar-me-ei com as lágrimas do nosso povo infeliz. Sem amor subjugado, espoliado, acorrentado, escravizado pelos filhos milionários do rei.
Serei santificada pelo génio dos enamorados na Angola finalmente libertada. E as aves poisarão sempre no meu pólen e para sempre serei abençoada. O perfume do meu pistilo imortalizar-se-á e nos próximos dias a nossa liberdade será louvada. Estou outra vez na prisão à espera que me libertem. Embarcaram-me num navio sem jasmins Mas mesmo assim perfumarei os mares e neles para sempre gravarei o meu nome nas suas ondas. E no meu silêncio eterno vingarei os desejos dos nossos passados e antepassados. No Universo farei um templo para que os navegantes futuros me adorem e se lembrem mesmo num momento fugaz que existi, amei… tentei mas não fui amada. Não adormecerei profundamente durante um século, dois ou mais. Quando o endocolonialismo globalizar, despertarei e os despedaçarei e lhes deixarei a minha fragrância eterna. Renovarei o nosso sangue azul e extirparei as sepulturas bilionárias. E nelas replantarei os aromas dos nossos corpos relvados, esverdeados, de pétalas vegetados, depois de regados com uma tempestade divina. Esta nova semente inundará o Universo. Serei, sereia da deusa Angola na Terra da dor renascida, desfeita refém do palácio do rei não eleito de futuro tumultuoso. Livre e independente do terrorismo bancário e imobiliário, vingarei o olhar inocente das crianças mortas de fome, de doenças. Sem tectos, condenadas pelas inclementes, palustres estações chuvosas. E os endocolonialistas nas janelas nazis regozijam-se com a matança mas não se salvarão. E os seus milhões e milhões de dólares recuperar-se-ão e as torres, os condomínios e os prédios que nos roubaram também.
E as crianças sem sepulcros sonharão com as minhas pétalas e haverá uma guerra infantil que arrasará os novos dementes, senhores, falsos doutores. E quando os meus lábios beijarem as crianças, elas ressuscitarão e transformar-se-ão em jasmins. E no navio do génio dos jasmins transportar-se-ão para o meu reino. Edificarei a minha beleza nocturna na história dos nossos céus e serei venerada Jasmim-da-noite. Pairarei na magia das nossas montanhas e renovarei, libertarei os Caminhos da ditadura monárquica, lá nos encontraremos. As feridas da nossa desgraça são como rochas infectadas porque Angola renovou-se, continua óptimo refúgio para criminosos e aventureiros, onde os destinos são fáceis de imaginar. Convém nunca esquecer: Estou outra vez na prisão à espera que me libertem.
Pelos vistos jamais encontrarei o amor. Dançarei ao som do vento apesar de abandonada, do meu paraíso afastada. Era abastada, agora na miséria forçada das multinacionais e da FAMÍLIA real, estes desumanos são a nossa perdição. Leves, fabricados sem peso como o desonesto pão.
Sou negra, porque as naus eram brancas. E de repente tudo escureceu, enegreceu. Estou mal, mas continuo honrada porque rica de coerência e verticalidade. Desterraram-me dos círculos presidenciais locais, mão-de-obra insistente dos recados, dos costumes ocidentais. Escrava elegante, os missionários dão-me boas lições nas missões, obediente, submissa a Deus, temente. Sem consentir, tornaram-me escrava do Senhor, e serva dos novos senhores da independência.
Outra vez… mas eles não descobriram nada, obstruíram, destruíram tudo da cidade de Luanda. Que seria livre da escravidão e do colonialismo, torpe mentira. Forçaram-me, mais uma escrava do rei e da rainha.

Quando regressarei à minha liberdade?!
O Senhor dos Casebres desalojou-me, espatifou-me, destroçou-me, espoliou-me. Como todos os seres inumanos é muito imperfeito. Sempre na infinita espera da demora no tempo cinquentenário. Tantos nobres na feitiçaria com o desejo de enriquecerem. Acabaram-se os gestos de ternura na independência que me desespera. Esqueceram-me e ao meu filho no longínquo abandonado, por promessas que nunca cumprem. Apenas as esperas das incontáveis bichas. As filas humanas dos deportados de todos os dias para conseguir algo. Que me espoliam todos os dias no desespero, sem independência nunca me afirmarei como mulher.