sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (18). Contra milhões de esfomeados ninguém combate.



(Num mundo de honestidade a economia seria desnecessária. A economia existe porque os desonestos são muitos e os honestos demitiram-se, perderam a coragem de lutar. A democracia é o movimento subtil da substituição das ditaduras para eternizar a espoliação universal das populações. Há bem pouco tempo era a espoliação pela inquisição da Igreja. Esta é a espoliação democrática.)


O vizinho esforça-se para subtilizar os instrumentos das cordas vocais. Por sorte a mente colabora.
-Vencido no jogo ebriático do álcool mas não convencido. Para liquefazer… escrever, dizem que é importante ter um estilo e utilizar metáforas. Quando inventaram a pólvora diziam a mesma coisa. Na era do nuclear inventaram outras contendas. No tempo em que o pensamento domine a matéria não gostarão dos raios luminosos extraordinários: «porque o tom azulado deste pensamento está muito carregado, a tonalidade daquele pensamento rosa está demasiado clara, o matiz desse pensamento vermelho foge à cor do sangue.» Os editores continuarão a perseguir-nos, dirão: «o estilo e a metáfora das cores não tem harmonia na estrutura, falta-lhes carácter». Sempre escravos da vontade deles. Estes são os verdadeiros ditadores benévolos. Só a sua ponderabilidade é imanente. Enfim, nenhum poder que se preze apoia intelectuais. Nos intelectos reside o prazer da resistência vital. Quem disser que a escravatura acabou é um sonhador. A democracia dos escravos é a revolta.
Ulisses mergulha a mente, docemente nos mares espumosos, superficiais cristais oceânicos. Sucede-se uma praia que se deleita com a nudez horizontal de Penélope. A ondulação melodiosa sobe e desce transparecendo a areia que encosta, refrescando o desejo da fremente epiderme. Penélope senta-se, enche as mãos de areia e passa-as pelos seios que avolumam, depois afunda-as na púbis, na vagina da leal ausência. Olha longínqua para o infinito oceano, e desprende-se:
- Meu esposo, nos mares onde navegas é fácil enfrentares a fúria das ondas. Em Ítaca não suporto as ondas da intempérie humana que me perseguem. Os dias passados são perdidos, irrecuperáveis. Tudo muda. Só o bater das ondas do mar permanece imutável. Se as pessoas fossem assim…
Ulisses cheio de vocação na terra emocionada usa o cansaço da rouquidão.
- Mas não são, nunca serão!
- Mas gostam dos momentos dessas semelhanças… conduzem-se como focas.
- Conduzem-se como loucos, vivem em carros loucos, em loucas estradas, que se altercam loucamente. Destarte é a civilização.
No barco, cinco homens do serviço de estrangeiros aguardavam-nos pacientemente. Mentor e Ulisses percebem a trapalhada da incongruente vadiagem estacionária. Um, cozinha as palmas das mãos em banho-maria, retempera-as pronto a servir-se. Soturno, explana manhoso:
- Nós facilitamos a entrada ilegal de estrangeiros, para depois à saída facturarmos.
Com dolo determinado exigiram cinco mil dólares. Mentor demoveu-os numa baixada de dois mil.
Mentor e Ulisses estão a bordo. Mentor convida-me:
- Vem! Tu e nós na patera, rumo a Gomera… depois Ulisses deixa-te em Ítaca.
E fui.
A Natureza continuava a pintar com tinta de água. Os seus pincéis pareciam violoncelos nos vidros da janela. A água corria, parecia que tinha pressa em chegar ao seu destino. Queria distrair-me, e a distracção é a corrupção da mente.
Andar à corda, a cirandar sem trigo para joeirar… a fome é uma questão política. Os políticos dividem os trigais entre si. Nas ruas, os vendedores revendem as sobras do PIB. Esta vida tresanda a bebida. Lembra, incontestável campeonato de barris de pólvora alcoólica, fermentados na imensidade inquisitorial. Paira, ressente-se o provável canto monótono do regresso às armas, à morte, à destruição.
Exportadores de petróleo, importadores de álcool. Escravos clonados no sono, do sonho escravo de dezoito quilombos. Frustrados no aroma pantanoso da liberdade. Sem formação, o escravo liberto prossegue na escravidão. Submisso no céu inundado de nuvens negras do FMI.
Escapei de levar, quando vi roubar motorizadas à paulada. Evitei a feitiçaria das baratas em fila indiana, e o gato preto que miava sempre à meia-noite. Meninos e meninas queimados, torturados, acusados de feitiçaria, ou usados no assado ritual canibal. Agora, complicam-se por qualquer coisa, e se incendeiam, ou se disparam, se matam de flagelos importados. Como Trajano, o império Bush exportou a violência na reconquista do Iraque. Tal e qual como antes sucedeu, a retirada é inevitável, e a violência reexportada. O campo magnético desta escravidão é muito intenso. Viver na maldade desta sociedade, é a autodestruição em cinco segundos. A morte é o curto-circuito da vida. Depois de um curto-circuito, os fusíveis da morte são irreparáveis.
Dos meus olhos reinaram lágrimas, quando li o anúncio da missa de defuntos. A oração, recordação do amor eterno de mãe para o seu bebé que viveu alguns meses.
«Meu filho, 21 anos são passados, mas na verdade é como se tivesse acontecido ontem. Meu amor, palavras, seriam necessários imensos jornais para exprimir, como grande é o meu sofrimento. Uma coisa eu digo, e direi sempre: dói, dói, dói, como dói, meu Deus. Descanse em paz meu bebé, e que estejas bem juntinho de nosso Senhor Jesus Cristo».

O camião descontrola-se. Na amurada dois contentores desequilibram-se, passeiam borda fora e descansam em doca seca onde três viaturas recebem pena de morte sem apelo a tribunal arbitral. A populaça com a fome bem desperta agradece a Deus o saque do dia.
O dinheiro do petróleo é o Terror desta Revolução Francesa. Muito dinheiro, muitos democratas, e muitos aventureiros para dar uma ajuda. Uma nação muito rica com muitos pobres, com poucos muito ricos.
A propaganda inconvicta passeia-se pelos bairros na retentiva ineficaz de explicitar aos confusos batedores eléctricos para não ligarem fios, porque causam muitos incêndios e carbonizações humanas. Muitos cabos eléctricos, incêndios garantidos. À noite, no torpor alcoólico desajeitado, acontece quem abasteça gerador com vela de cera acesa, e fica com a vela na mão. A democracia é como uma instalação eléctrica, deve ter bons disjuntores.
Um delinquente reincidente dos telemóveis não se cansava da prisão. A mãe conivente agraciava-o, pagava para lhe ver fora das grades. Mamãe cansou-se e não o desprendeu. Um tio desgradeou-o. Ele chegou em casa muito depreciado, e perguntou à mãe: «porque não me tiraste da prisão?» e deu-lhe um tiro de misericórdia.
Até nos cadáveres há cinismo, neste reino transportam-se como mercadoria vulgar.
Seis gracinhas saíram em correria da igreja. Como um anjo, as vozinhas infantis estimularam os pávidos passeantes ocasionais. A plenos pulmões pequeninos ensaiaram o espiritual negro da gatunice.
- Agarra! Agarra!
Era um gatuno, fingido crente, que inculto perturbou o culto. Sacrílego, roubou o telemóvel do sacerdote oficiante. Os agora impávidos revoltaram-se baixando os polegares. O impopular tentava refazer-se dos acidentes eucarísticos, mas não dos de percurso. Estava já a comer o pão que o diabo amassou. O vale de lágrimas estava incompleto. Fiscais governamentais atentaram-lhe no saco das costas e na carteira, e evadiram-se. A alma dele fugia-lhe. Um Baden-Powell chegou, ordenou aos seus escuteiros que o carregassem para a igreja. Salvou-se da extrema-unção.
Alheados, ratinhos do lixo trabalham. Destampam contentores, abrem sacos com lixo na esperança de encontrarem pitéu. Mas não dá para o petróleo. Uma gracinha, talento floral inocente dos primeiros passos corais do espírito evangélico, desconfia para um ratinho humano:
- Donde vens?
O ratinho humano olha-a, considera-a fada das lixeiras. Mergulha as mãos e quase a cabeça no contentor. Não tem nada para dizer, não sabe o que é viver. A resposta só pode ser dada como a vida do lixo.
- Lixado, mal lixado!
Um gato sente-se ofendido pela verticalidade da pernada do ratinho humano. Os gatos são exímios concorrentes desleais. O felino afasta-se do seu hábito alimentar, dá uns saltos… e outro lixo seguro à vista. Duas crianças politizadas e continuamente educadas do antanho satirizam:
- Contra milhões de esfomeados ninguém combate.
- Essa é boa! Porquê?
- Porque derrotados, fica muito dispendioso alimentá-los.
Os vermes provenientes do lixo invadiam quintais. Procuravam melhor caminho para espoliarem nas casas. Os esgotos e águas paradas originam a democracia incipiente. Democracia violentada na ilusão das palavras da liberdade, porque os famintos nas prisões da fome não se alimentam das epidemias das ideologias políticas. E a peste negra, em parte, como todos sabemos fez o sistema feudal desabar.
Não é possível o ser humano amar, porque destrói o amor!
As águas escuras da putrefacção habituam as pessoas à escuridão. E da janela sempre à espreita, um bom observador sempre nota algo que se aproveita. Os carros foram feitos para andarem, e nas estradas estão continuamente a pararem. Progresso é passar o tempo da vida nos assentos dos carros.
Mar alto, como se o mundo fosse água. Para onde quer que olhe vejo tudo líquido. Que imensidão na minha pequenez. Sinto-me microscópica perante tanta vastidão. As ondas poderosas fazem liberdade. Mas, estou receosa, isto não é vida para mim. Vou descontrair-me junto dos meus companheiros, ouvir o que conversam. O mar para eles é como se fosse um velho amigo. São filhos dele. Acho que Ulisses está a astuciar, sempre.
-… Com um bom pastor e ovelhas obedientes…
- Sem líderes?
- Mentor… se as tais massas forem inteligentes, pensantes, souberem o Caminho, os políticos acabam.
- Deixa de haver partidos políticos.
- Exactamente.
- Acabando com eles, acabam as equipas.
- Como no futebol.
- Não! As pessoas podem chutar a bola à vontade, seja redonda ou quadrada.
- De preferência quadrada, redonda qualquer joga.
Imagem: Aléxia Gamito