quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (25) Como pode uma escrava ser libertada, na liberdade iletrada




Neste mar imenso, profundo, com pessoas rasas, pequenas/ superficiais com meios poderosos imensos e profundos/ lançam dejectos intensos nos mares lamacentos e infecundos.
Enquanto o chapéu de palha que esconde a cabeça do sol quente e teimoso/ avista-se a carroça com as rodas de madeira no caminho cheio de pedras chiando.
O homem sentado quase adormecido chicoteia o cavalo que indiferente arrasta tudo isto seguindo no indiferente caminho/ perdido na escuridão, na solidão sonolenta da minha alma.
Descobriram-me nas Montanhas da Lua/ no monte Quilimanjaro, no Lago Vitória, Tanganica e a minha tanga/ antes deles, passei lá as férias com as minhas amigas/ agora sinto medo do mar estão tubarões nos seus altares dos holocaustos/ nos pedestais, multidões de condenados e esfomeados sofrem os horrores dos ditadores democratas sem democracia noite e dia/ margens adormecidas despertadas pelo mar sem sono/ alto o luar querendo iludir o mar/  perto a aragem da noite revela as sombras dos mangais na vegetação marginal/ depois de uma angustiante e longa ausência fito-me para longe dos tormentos por momentos Indecisa, perdida, que o amor não vê/ corremos loucos uns contra os outros desviamos o encontro dos nossos olhos/ não conseguimos abraçarmo-nos durante um momento e prometemos que seríamos escravos dos novos senhores.
Canso-me tanto destes príncipes e princesas tão distantes e tão próximos sempre com a mesma estrela embandeirada, enganadora Tudo tão próximo, tão distante.
Com petróleo e diamantes em excesso preparo a fuga/ o regresso do insucesso, da ecuménica economia/ quando roubam… é aos milhões. O FMI apoia, lembra que a actual, mundial democracia é demoníaca. Grande invento, esse da democracia para nos continuarem a escravizar subtilmente.
Para as praias da braça das barcas da ignomínia/ mais regresso forçado para os colonizadores, que me esperam além dos Açores/ perdida nas marés negras petrolíferas sem diamantes/ Das forças, forcas policiais, militares e políticas do desespero das crónicas epidemias mortais.
Corria no dia afogado pela chuva, vagueava para não molhar o cabelo/  para não surgir com a minha feminilidade desfeita/ como é belo amar o meu cabelo molhado.
Quando a guerra começou… começou há milénios/ começou com os homens e acabará com eles/ não é significativo pensar que as guerras acabarão porque os homens ainda não acabaram/ mas é significativo pensar que o amor acabará com as guerras.
Esqueci que sou africana, sou uma fulana, mendiga mundana/ salvei um branco da morte, estava pronto para imolar/ pus o meu corpo à sua frente, depois cantou-me uma canção para me desprezar/ e muitos segredos se perderam na Ocidental civilização, arderam/ voltei à escravidão, sem livros na mão/ é o corpo deles que governa, domina o mundo.
Não usam a mente/ não sou produtora, sou caçadora predadora/  dialogo sem pensar/ a farra da minha mente é uma imensa discoteca barulhenta, ferrugenta.
Nos prédios que herdamos dos colonos, revivem/ vivem na gótica imaginação fluorescente do passado/ ando sempre a procurar e encontro-me sempre no mesmo lugar/ não consigo sair, porque não tenho dinheiro para nada adquirir.
Vivo na dimensão do ar, enquanto me deixam respirar/ e na panela de lata importada não encontro nada para me alimentar/ sem ensino não consigo escolar/ não desisto da desgraça enquanto existir a miséria. Estou na penitência, na negra existência do zénite/ não há ninguém que se disponha a lutar e só pensar que existe sempre alguém iluminado/ existirá sempre alguém que nos mostra o despertador. Existirá sempre um Velho Mundo
O Novo Mundo, já ancestral descoberto Com o desejo de acabar, alienar a nossa raça cumpriu-se Em breve passaremos a armazém zoológico extinto A filme de dinossauros e pterodáctilos Assim foi com os Índios americanos com todos Uma exterminação democraticamente eleita porque imperfeita O ouro negro é muito valioso. Eu dourada de negro não Fizeram com que os meus feitiços perdessem o poder, um feitiço atómico destronou-me
Sou bela como flora fora E que se decrete para sempre As mulheres belas, a beleza delas será para sempre Plantada no jardim Universal no regadio da aurora polar
Apesar de tudo a suave brisa marítima paira sob o meu semblante E por vezes as montanhas me parecem humanas Quem diria que nas grandes viagens parecemos mais humanos Quem diria que os seres humanos perdem-se na aventura Quem diria que dos intermináveis diálogos nos tornamos desumanos, selvagens, doces e amargos Quem diria que não podemos sobreviver sem insónias Quem diria que do encorpado final vinhateiro ficaria uma doce recordação
O apogeu, o fausto do Velho Mundo contendia Não entendia a recente civilização, nova do Novo Mundo A época medieval destruiu os resquícios das antigas civilizações, e o homem aprendeu fortemente a cultivar o instinto mortal De rasgar, destruir os povos que viviam em harmonia com a Natureza A gritaria assustava a vida dos mares, dos rios, das montanhas, das florestas: «Onde está o ouro!?.. Onde está o ouro!?» A inocência do húmus na terra guardava-o
Os milhares de cadáveres humanos que não atribuíam valor ao metal da discórdia foram martirizados e abandonados na terra virgem, insatisfeita. A Natureza iniciou a revolta gigantesca que perdura, perdurará, até apagar a tocha do incandescente humano. Não mates para não seres morto!
A meio da manhã serviste-me cacusso que ainda vivia, assado na delícia agitada do carvão em brasa Olhámo-nos profundamente, muito para além das nossas almas Oh!.. como depois foste tão delicioso Quando recebi os teus lábios e espoliei a morada do teu coração
As guerras trabalham a tempo inteiro de manhã… de dia e à noite Foi num desses períodos que perdi para sempre o gosto de amar A guerra dos falsos libertadores Assassinaram o teu amor no Dondo
Ainda resguardei tempo para te ver, enquanto vivias nos relâmpagos da trovoada canhoneada Difundiam as divisões militares da divisão da Nação Depois impediram-me de voltar de te olhar pela última vez Sei que deixaste de existir para sempre numa catacumbal cratera Numa abertura de terra chamada meu amor de Ndalatando
Os nossos gladiadores espadeiravam-se E chamavam-se de movimentos de libertação Andavam na busca do Santo Graal finalmente encontraram-no Escondido no petróleo, no brilho dos diamantes e nas especiais especiarias Das esmeraldas dos nossos corpos preciosas mercadorias que vendiam e revendiam no ciclo vaivém infernal das carnais naus Não se importavam com a exportação corporal do meu belo corpo, atraente e sensual tão natural, carnudo de polpa mangal Quem inventou o ser humano deixou-o com vários curto-circuitos
A escrava nunca esquece a pessoa amada é o amar como uma escrava Sem nunca esperar um sorriso e confiar na espera eterna de um carinho Um beijo nas ondas do meu corpo sem olhar para os teus olhos Conservando o sofrimento das lágrimas quando obediente sigo os teus passos sempre unidos no meu íntimo areal O meu destino é a posta-restante Oiço as vozes celestiais do meu canto perdido nos florestais encantos A minha simplicidade e humildade continuam comoventes Ser ou não ser, eis a questão?! Puro e ledo engano Ter ou não ter eis a imperfeição! do meu Taj Mahal debaixo de cada árvore um templo sem reino, expatriada
O tempo do templo deste outro colonialismo é uma teia e nela continuo enredada Sim! O tempo é um templo, o meu relógio parou já não sei o que são horas Porque demoras Liberdade?!.. Cativa da Santíssima Trindade
Como pode uma escrava ser libertada, na liberdade iletrada
Aos que faleceram com as guerras e levaram guardaram escondem os seus silêncios nas sepulturas Fiz muitas promessas no cume do Quilimanjaro olhei para muito longe e confundi-me Cercada pela savana perdida de verde apenas restava o halo das ditaduras como um astro sem brilho Muito longe, muito longe das promessas que me fizeram Que tudo seria maravilhoso Mas tudo continua muito longe do alto do monte Das promessas teimosas não acontecidas Vejo vultos e imagens sem corpo que não sonhei. Continuo muito longe do teatral perto
Viajo muito na recém opulência das negreiras cavernas das naus Ouvia o comovente embalar salgado da água agitada agora estou na escuridão da terra até ela me voltam a espoliar no regresso da expiação dos crimes da governação
Não construímos, destruímos nações Prometemos, ficamos, africamos, daí não passamos Gloriosamente apreciamos o extinguir da chama Libertadora, opressora que ateámos, e não sabemos mais não podemos controlá-la Apreciamos a luxúria do automóvel brilhante do fato e gravata ocidental. Fazemos muitos internos discursos e a Nação avança com ténues palavras perdidas No vento desolador, nos incomensuráveis desígnios pessoais do chefe africano Povo é uma só pessoa. Povo, objecto de uso, de âmbito pessoal.
Desconhecidos pelos colonizadores que hoje subtilmente são nossos grandes amigos Nos anos da espera que são sempre muitos que Deus deseja primeiro e nós esperamos Ele promete Ramos balsâmicos do eucaliptal na cafreal terra outrora mapeada Da amizade não retribuída é difícil voltar atrás Como são difíceis e complicados estes dias Nos mercados compra-se, vende-se miséria Para viver e sofrer, edifico a minha prostituição a vida fácil, da difícil existência. Corpos nus, no relento ambiental. Tudo o que é matéria tem limites
Tempestades ventosas
Obrigam-me a fazer muitos filhos, na esperança inglória que algum chegue a presidente, ou ministro Não consigo reverter a minha mente colonizada perdida. Perdi a minha identidade cultural Sorrio a minha angústia na companhia feérica dos esgotos Até as praias me roubaram, a África privatizaram
Estes descolonizadores começaram e ainda não se acabaram
No início continuam a ensinar-nos que o mundo é muito bonito Tudo cheio de flores. E que é tão lindo amar no mundo Que merecemos ser felizes e que para isso devemos Ser sinceros como a água pura apenas quando a bebemos e saciamos a sede
Imagem: Aléxia Gamito